
(Rafael Ribeiro/CBF)
Se tem uma questão com a qual podemos concordar, é que não é por falta de reflexão que o futebol não anda. Sou levado a crer que não há assunto neste país tão debatido, tão interpretado, tão falado. O que por outro lado talvez explique porque as coisas não andam dando certo nestas plagas. Há muito tema para além das quatro linhas que mereciam tamanha atenção. E que por tabela talvez fizessem nosso futebol prosperar. Pois está arriscado a levar uma bola nas costas quem desacredita que o jogo de bola não é, ainda que por vias tortas, um reflexo da sociedade em que está inserido.
Vejo inclusive no cenário da crônica em geral um viés muito obvio - mas que deveria causar preocupação - que é o fato de que as pessoas hoje em dia parecem se importar mais com a opinião do que com a informação propriamente dita. Busca-se, antes de tudo, um ponto de vista para a partir dele travar um embate mental com o que foi posto. Ocorre que como ressaltava uma velha propaganda de jornal: é possível dizer muitas mentiras partindo de verdades.
Minha avó Lucila, mulher sábia, professora, violinista, observadora pra lá de atenta, toda vez que ouvia uma patacoada, se apressava a dizer que a fala nos devia ser dada em metros, que era para se pensar muito antes de usá-la. E eu, garoto novo, demorei um pouco para sacar a inteireza do que ela propunha. E a velha senhora taxativa tratou de esmiuçar o raciocínio dizendo, por exemplo, que era só eu imaginar que cada um teria dois metros de fala por dia. Aí, se saísse gastando como louco, acabaria ficando sem depressa.
A limitação seria remédio eficaz para provocar o bom uso, essa era a teoria na qual vovó acreditava com fervor. E se coloco esse tema na mesa quando mal está terminada a vossa ceia é porque o que anda sendo dito espanta. Vocês devem lembrar o caso do Dorival Júnior que fez nascer manchetes. Disse o treinador da seleção brasileira, enquanto o futebol apresentado por ela não vingava, que estaremos na final da Copa do Mundo de 2026. Eis aí um caso que se a fala fosse dada em metros talvez não tivesse se dado.
Dorival, em outro momento, e não deve ter sido por acaso, disse com todas as letras que os que falam muito, vejam bem, os que falam muito, daqui a dois anos terão de engolir uma grande conquista. A ver. Também poderia citar Renato Gaúcho, que semanas atrás num acesso de modéstia disse: eu sou muito bom. Gostaria de acreditar nele, mas pouco depois ouvi Pep Guardiola afirmar que não era bom o bastante. E se o gênio não é bom o bastante, que dirá Renato Gaúcho.
Vovó a essa altura talvez sugerisse que os dois metros fossem reduzidos a 15 centímetros. E a mais nova pérola nessa linha foi obra de Luis Zubeldía. O emotivo treinador são-paulino cravou um "seremos campeões da América". O que me faz concluir que não foi à toa que o "fala muito" de Tite fez tamanho sucesso. O fato é que na ausência de limites cada um segue falando o que bem entender. Já no caso da escrita tranquilizo vocês, pois me são dados comedidos 2.900 toques por semana. Que o novo ano seja o melhor de todos.