
Meta, controladora do Instagram, Facebook e WhatsApp, decidiu acabar com o sistema de checagem de fatos (Reprodução/Pixabay)
Na calçada movimentada, um homem olhava para a tela quebrada do celular. Ele mirava o reflexo da rua. Os prédios, os carros, as pessoas; tudo ao redor se dissipava entre os estilhaços do aparelho. Uma realidade distorcida pelo espelho danificado. A cena me chamou a atenção. Ironicamente, parecia haver algo de poético na situação.
Minutos antes, esse mesmo senhor caminhava irritado pela avenida. Ele xingava e falava uma série de palavrões enquanto gravava mensagens de voz pelo celular e digitava. Vindo na sua direção, uma moça passava correndo com fones de ouvido. Enquanto caminhava desatento, o homem trombou com a mulher, que parou a corrida na hora.
O celular caiu no chão, rachando a tela, para indignação ainda maior do homem. “O senhor está bem?”, perguntou a moça. Ele respirou fundo, e respondeu que sim – afinal, a culpa foi inteiramente dele. “Eu estava distraído, desculpe a trombada”. A mulher voltou a correr, e o senhor recolheu o celular espatifado do chão. Próximo do local, o dono de uma banca, que parecia conhecê-lo, brincou: “Vamos ver se agora você sai desse WhatsApp e volta a comprar o jornal comigo”.
Entrando na brincadeira, respondeu: “Eu tenho as informações na palma da mão, rapaz”, e apontou para o celular destruído. O comerciante perguntou, afinal, por qual motivo ele andava irritado. O homem respondeu que recebera notícias preocupantes sobre uma série de assuntos. E por conta disso, estava desabafando em um grupo de conhecidos.
Agora, sem o celular para controlar a pauta do dia, o homem se reconectava forçosamente com a realidade. Aos poucos ia se acalmando, enquanto conversava com o dono da banca e olhava o reflexo fragmentado da cidade pela tela destruída.
Observar aquela situação me fez verificar que, cada vez mais, as informações construídas e propagadas pelas redes sociais estarão presentes, moldando e organizando a nossa relação com o mundo. O problema está na forma como nos relacionamos com estas informações. Em 2024, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou o resultado de pesquisa sobre desinformação, que apontava o Brasil como o país com o pior desempenho na capacidade de identificar notícias falsas na internet.
Algo que deve piorar com a decisão da Meta, controladora do Instagram, Facebook e WhatsApp, de acabar com o sistema de checagem de fatos. Na dinâmica acelerada das redes, as informações são descontroladas. O usuário desorientado não tem tempo, nem interesse, em verificar nada. A lógica de viralização culmina em uma irreversível crise narrativa.
Enquanto olhava as capas de jornal e folheava publicações de paisagismo, o homem contava ao vendedor que havia se irritado por conta de um vídeo. O dono da banca explicou que aquela história não era verdadeira, mas o homem se recusava a acreditar. Com o celular quebrado na mão, se despediu e foi embora pela avenida. Boa semana!
Assuntos relacionados