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Matheus Tagé

O Oscar merece Ainda Estou Aqui

A obra traz uma interpretação primorosa da atriz Fernanda Torres, além de uma adaptação visual incrível e de uma engenhosa linguagem na concepção da montagem

Matheus Tagé

25 de novembro de 2024 às 05:56
(Divulgação)

(Divulgação)

Eu me apressei para conseguir o ingresso do cinema, para a última sessão do filme Ainda Estou Aqui, naquele domingo à noite. Fiz questão de assistir no final de semana de estreia. A obra traz uma interpretação primorosa da atriz Fernanda Torres, além de uma adaptação visual incrível e de uma engenhosa linguagem na concepção da montagem.

O filme de Walter Salles, lançado no início de novembro, é um sucesso de público e crítica. A adaptação do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva trata com uma estética fascinante a história de Eunice Paiva, esposa do deputado Rubens Paiva, e mãe de cinco filhos, que de repente tem a vida transformada por conta do desaparecimento e assassinato do marido por agentes da ditadura militar, em 1971.

Para além de qualquer percepção estilística, o filme Ainda Estou Aqui é uma reconstrução da memória, não apenas da família, em específico, mas da trágica história do Brasil. A partir da estruturação de personagens que vivem em um cotidiano casual, podemos verificar o estranhamento que existe do ponto de vista da presença de forças obscuras do regime de exceção, espreitando essa aparente normalidade o tempo todo. Nesse sentido, um alto nível de adrenalina cerca o espectador durante a primeira metade do filme – como se esperássemos a todo momento pela quebra do equilíbrio.

A sensação de angústia a que somos submetidos faz parte do ritmo do roteiro. Um exemplo disso: podemos observar em uma cena no início do filme, em que há uma blitz policial e o carro de uma das personagens é parado. O coração vem à boca, junto com os dos envolvidos na situação.

Durante a detenção, após a protagonista ser interrogada inúmeras vezes, assumimos sua ótica e começamos a nos confundir com fotos dos perseguidos políticos que ela é obrigada a fazer reconhecimento. Nessa sequência, a personagem vai se desmaterializando e sentimos com ela o torturante processo de degradação humana a que o regime militar submeteu tantas vítimas.

As imagens que transitam por meio da montagem entre a lente normal e a câmera Super-8 são impressionantes e dão à narrativa uma espécie de ruptura com a linguagem fílmica tradicional, fazendo com que acessemos a realidade diegética por meio da textura analógica. Com isso, o filme nos coloca, por vários momentos, em um processo de imersão – algo quase sensorial.

Para entendermos as camadas dramáticas, a produção aprofunda o aspecto de familiaridade. Há muitas cenas interessantes. Em uma delas, o pai finge enterrar na areia da praia o dente da filha caçula, para depois guardá-lo escondido no bolso. Em outro momento, um cachorro é adotado pela família, após muita insistência para conseguir a autorização do pai. A festa de despedida da filha, que vai morar em um lugar distante, e a fotografia dos convidados na praia. A metáfora do enterro do cachorro – um contraponto à despedida do pai, que nunca aconteceu.

A casa cheia de gente, colorida e de energia pulsante, nos evoca recordações que podem encaixar em qualquer pessoa. A flexibilização da saturação, acoplada ao processo de esvaziamento de sentido, acontece de forma progressiva e culmina na despedida e mudança da família, deixando a casa vazia, sem vida.

A performance de Fernanda Torres é deslumbrante. Mesmo com toda a tragédia que acomete a sua família, a prisão, o assassinato do marido, a perseguição de agentes que ficam estacionados na porta de sua casa, a crise financeira, ainda assim, ela sustenta uma aparência de normalidade, para que os filhos não sintam o mesmo que ela. O filme é carregado de afeto e, principalmente, de muita honestidade – já que não faz uso de qualquer subterfúgio hollywoodiano para causar emoção.

A protagonista transita entre duas realidades: a dimensão triste de ser uma vítima de um regime criminoso e, ao mesmo tempo, a urgência em equilibrar uma realidade imaginária para que os filhos vivam. Dessa forma, segura-se o tempo todo para evitar o colapso entre esses dois mundos. Há uma tonelada de emoções que Eunice interioriza, mas que não pode deixar evidenciar. O único momento em que a cisão entre duas realidades ameaça ruir é na cena da sorveteria. Nesse trecho, o espectador e a protagonista se dão conta da irreversibilidade e, apesar da injustiça, ela resolve seguir em frente.

Outro momento marcante é a emoção ao conseguir o atestado de óbito do marido, em 1996 – o que conclui, parcialmente, sua busca por justiça. A personagem tem um desfecho dramático, interpretado brilhantemente por Fernanda Montenegro, que consegue introjetar os traumas com extrema dignidade, em paralelo ao Alzheimer. Não é o filme que merece o Oscar; é o Oscar que merece Ainda Estou Aqui. Boa semana!

Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna. As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.
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