
(Matheus Tagé/AT/Arquivo)
Desde 2020, venho alertando que a redução no tempo de espera das filas de navios porta-contêineres no Porto de Santos já demonstrava sinais de inversão. Após atingir o menor patamar da história recente do Porto, com média de 8,9 horas em 2019, a tendência começou a se reverter já naquele ano, indicando um possível aumento nos tempos de espera.
Tenho repetido esse alerta desde que a fila atingiu 22 horas de espera, em 2023. Mesmo assim, em dezembro de 2024, registramos um mês com uma média alarmante de 53,1 horas. O impacto financeiro é gigantesco: com 22 horas de espera, o custo anual já se aproximava de R$ 1,5 bilhão. Agora, com os números de dezembro, a projeção sobe para uma média de R$ 2,9 bilhões por ano apenas com a espera de navios de contêineres – sem contar os prejuízos da desorganização da logística nacional.
No entanto, a pergunta mais urgente não é sobre as consequências, pois essas já são fato consumado, mas: por que, mesmo diante de um dado tão crítico para o desenvolvimento do País, seguimos inertes, permitindo que a situação chegasse a esse ponto?
A raiz do problema está na segurança e credibilidade da informação analítica. Nos últimos cinco anos, a capacidade do Porto tem sido tema de uma verdadeira guerra de versões, onde dados conflitantes geram incerteza e paralisam a tomada de decisão.
Por mais convicto que eu esteja da informação que estou aqui transmitindo, é natural que haja certa desconfiança. Principalmente quando essa informação parece contradizer o que a instituição sugere. Daniel Kahneman, vencedor do Nobel de Economia, já mostrava como muitas vezes confiamos demais em intuições que podem nos levar a erros.
A falta de clareza sobre quais informações são mais confiáveis leva a decisões tardias ou, pior, à inércia do estado. Muitas vezes, políticas públicas são formuladas com base em hipóteses não comprovadas, resultando em impactos desastrosos para a economia – especialmente em um país onde os recursos públicos para investimento em infraestrutura são escassos.
No entanto, nesta coluna, busco não apenas apontar problemas, mas também sugerir caminhos para soluções. Nesse caso, acredito que é chegada a hora da construção de uma base de informações confiáveis, se queremos ser uma sociedade que aprende com os próprios erros.
O Brasil já possui uma grande quantidade de dados sobre logística nacional. Um exemplo é o Porto sem Papel, lançado em 2011, que coleta mais de mil itens de dados para cada atracação. Em quase 14 anos de operação, o sistema já acumulou mais de 1 bilhão de registros, mas seu potencial para planejamento estratégico ainda é pouco explorado.
Além da vasta base de dados, existem metodologias de análise consolidadas em diversas áreas do planejamento de transporte e logística, como meio ambiente e sustentabilidade, operações de transporte, infraestrutura e engenharia, economia e finanças, interconexões logísticas, gestão fundiária e prognósticos de demanda.
No caso dos portos, informações valiosas estão espalhadas por diversos ministérios, do de Portos e Aeroportos, bem como agências reguladoras, Receita Federal, Infra S.A., Ipea, BNDES, tribunais de contas, universidades e órgãos estaduais de desenvolvimento e transporte. O setor privado também possui bancos de dados relevantes, mantidos por confederações da indústria, associações e institutos de pesquisa. Há um imenso volume de informações, mas que permanecem dispersas e sem integração eficaz.
O grande desafio, portanto, não é a falta de dados, mas a necessidade de uma coordenação maior. O País precisa de um esforço para transformar esse volume de informações em análises sistêmicas confiáveis, capazes de embasar decisões antes que os problemas se tornem crises. Eu chamaria esse esforço de Projeto Anjo da Guarda!
Como dizia minha sábia avó: “Anjo da guarda não diz ‘eu te disse”.