
Tão importante quanto a intenção de restaurar o verde é a necessidade de envolver a sociedade civil nesse movimento (Carlos Nogueira/AT/Arquivo)
Os meses de janeiro e fevereiro não deixaram dúvidas nem aos mais céticos que o clima não é mais o mesmo de 10 ou 20 anos atrás. E se ainda há pessoas que desacreditam que os verões mais quentes e as chuvas mais intensas e frequentes são obras do acaso, a Ciência e os institutos que monitoram as temperaturas já anunciaram: foram os meses mais quentes em todo o registro histórico, não apenas em Santos como em várias cidades brasileiras. Sofrem mais as que reúnem características que potencializam esse cenário climático, como Santos, a mais verticalizada do Brasil, fortemente adensada, com poucas áreas verdes e cobertura asfáltica em quase sua totalidade, e ainda com uma das maiores proporções de veículos por habitante: duas pessoas por veículo.
Essas são razões suficientes para entender e apoiar a iniciativa a ser lançada hoje pela Prefeitura de Santos que pretende, nos próximos quatro anos, plantar 10 mil árvores na parte insular até 2028, ampliando de 35 mil para 45 mil seu inventário arbóreo. A iniciativa, chamada de Santos Sustentável, prevê uma série de ações para alcançar essa meta, como conectar as áreas verdes, reduzir a retenção de calor pela substituição do asfalto por jardins e canteiros e estimular a caminhada e o uso da bicicleta, entre outras medidas.
Nas últimas décadas, é notória a supressão de árvores em todos os bairros, justificada pela verticalização intensa e ampliação de guias rebaixadas para veículos no entra-e-sai dos edifícios. A substituição de casas térreas, em geral com quintais e jardins, por imóveis verticalizados - tanto residenciais como comerciais - é um processo lento e gradual que se observa há mais de 40 anos. Além disso, o pavimento das ruas vem sendo substituído por camada asfáltica, impermeabilizando o solo e aumentando a retenção de calor.
O que parece apontar o programa ora anunciado é a intenção de manejar o espaço urbano de tal forma que amplie as áreas verdes sem comprometer a mobilidade viária ou a atração de negócios da construção e outros comércios. Para isso, espaços ociosos ou passíveis de receberem árvores, jardins e canteiros serão mapeados. É bem-vinda a instalação de matas urbanas, como a que será entregue hoje em parte da área de estacionamento de um hipermercado.
Tão importante quanto a intenção de restaurar o verde é a necessidade de envolver a sociedade civil nesse movimento, ouvindo as entidades que militam nessa área e participando aos moradores dos bairros todas as intervenções que serão feitas. Cidades sustentáveis se mantêm com a sinergia de toda uma comunidade. Além disso, também é necessário garantir manutenção e zelo pelos novos espaços, para que não representem mais pontos de discórdia entre população e poder público.
O programa pode servir de modelo a inspirar os municípios vizinhos, tornando a Baixada Santista referência no País na adoção de medidas de mitigação e resiliência frente às mudanças climáticas.
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